Letras ao luar


Vinicius é a paixão de qualquer mulher que goste do amor e de se sentir amada por poemas e canções. E creiam, gajos, toda mulher gostaria de um poema de Vinicius, Lorca, Rilke, Neruda, Pessoa, Hugo... porque o poeta é esse homem que se encanta.

 

O POETA

 

A vida do poeta tem um ritmo diferente

É um contínuo de dor angustiante.

O poeta é o destinado do sofrimento

Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza

E a sua alma é uma parcela do infinito distante

O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

 

Ele é o eterno errante dos caminhos

Que vai, pisando a terra e olhando o céu

Preso pelos extremos intangíveis

Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.

O poeta tem o coração claro das aves

E a sensibilidade das crianças.

O poeta chora.

Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes

Olhando o espaço imenso de sua alma.

O poeta sorri.

Sorri à vida e à beleza e à amizade

Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.

O poeta é bom.

Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras

Sua alma as compreende na luz e na lama

Ele é cheio de amor para as coisas da vida

E é cheio de respeito para as coisas da morte.

O poeta não teme a morte.

Seu espírito penetra a sua visão silenciosa

E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.

A sua poesia é a razão da sua existência

Ela o faz puro e grande e nobre

E o consola da dor e o consola da angústia.

 

A vida do poeta tem um ritmo diferente

Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu

Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

 

Vinicius de Moraes



Escrito por Carolina de Loar às 00h53
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RECONCILIAÇÃO

(J. W. Goethe, tradução de Paulo Quintela)

 

A paixão traz a dor! – Quem é que acalma

Coração com angústia que sofreu perda tal?

As horas fugidias – para onde é que voaram?

O que há de mais belo em vão te coube em sorte!

Turbado está o espírito, o agir emaranhado;

O mundo sublime – como foge aos sentidos!

 

Mas eis, com asas de anjos, surge a música,

Entrelaça aos milhães de sons aos sons

Pra varar, lado a lado, a alma humana

E de todo a afogar em eterna beleza:

Marejado o olhar, na mais alta saudade

Sente o preço divino dos sons e das lágrimas.

 

E assim aliviado, nota em breve o coração

Que vive ainda e pulsa e quer pulsar,

Pra ofertar-se de vontade própria e livre

De pura gratidão pela dádiva magnânima.

Sentiu-se então – oh! pudesse durar sempre! –

A ventura dobrada da música e do amor.

 

Goethe



Escrito por Carolina de Loar às 16h12
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POEMA DE DYLON THOMAS

 

Morreu no hospital St. Vincent em novembro de 1953. Hemorragia Cerebral foi o laudo médico. Mas essa é uma classificação pobre. Poetas não morrem de hemorragia cerebral. A hemorragia é uma conseqüência. Eles morrem de linguagem. E foi a linguagem de Thomas, em suas poesias recitadas pela BBC de Londres, que ajudou o povo inglês, vítima dos bombardeios da segunda guerra, a enterrar seus filhos.  Uma vez ele disse o seguinte:


E a morte não terá nenhum domínio.

Nus, os mortos irão se confundir

Com o homem no vento e a lua no poente;

Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos;

Ainda que enlouqueçam, permaneceram lúcidos,

Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir;

Ainda que os amantes se percam, o amor persistirá;

E a morte não terá nenhum domínio.

 

E a morte não terá nenhum domínio.

Aqueles que há muito repousam sob as dobras do mar

Não morrerão com a chegada do vento;

Acorrentados à roda da tortura, jamais se partirão;

Em suas mãos, a fé irá fender-se em duas,

E as maldades do unicórnio os atravessarão;

Espedaçados por completo, elas não se quebrarão.

E a morte não terá nenhum domínio.

 

E a morte não terá nenhum domínio.

Não mais irão gritar as gaivotas aos seus ouvidos

Nem se quebrar com fragor as ondas nas areias;

Onde uma flor desabrochou não poderá nenhuma outra

Erguer sua corola para as rajadas da chuva;

Ainda que estejam mortas e loucas, suas cabeças

Haverão de enterrar-se como pregos através das margaridas,

Irrompendo no sol até que o sol se ponha.

E a morte não terá nenhum domínio.

 

Dylan Thomas.



Escrito por Carolina de Loar às 17h29
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OFERTO DOIS POEMAS DE POETAS QUE AMO

FEDERICO GARCIA LORCA e CARLOS GILDEMAR PONTES

 

 

GAZEL DO AMOR DESESPERADO

 

A noite não quer vir

para que tu não venhas,

nem eu possa ir.

 

Mas eu irei,

inda que um sol de lacraus me coma a fronte.

 

Mas tu virás

com a língua queimada pela chuva de sal.

 

O dia não quer vir

para que tu não venhas,

nem eu possa ir.

 

Mas eu irei

entregando aos sapos meu mordido cravo.

 

Mas tu virás

pelas turvas cloacas da escuridade.

 

Nem a noite nem o dia querem vir

para que por ti morra

e tu morras por mim.

 

Federico Garcia Lorca



Escrito por Carolina de Loar às 15h44
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NA LUZ DA TUA IMAGEM

 

quando em pensamento vivo

uma confusão ao certo

se sou do teu sol cativo

ou do teu luar deserto

 

fez-se um desejo infinito

que até ao mar revolta

mesmo velejando aflito

todo coração se solta

 

em toda vontade canto

mesmo que me choque a alma

se do amor sou oriundo

 

vou te alentar com o manto

para embalar a calma

do meu sonho mais profundo

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Carolina de Loar às 15h44
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Dirijo-me aos poucos leitores que desfrutam comigo deste espaço. Peço-lhes perdão por não conseguir atualizar este blog como deveria. O mundo das tarefas me aprisiona e, o que sobra, divido entre a leitura, as tarefas de casa e alguma música ou filme, que os gosto muito. Estas não são desculpas, apenas uma atenção e um agradecimento. A partir da próxima vez, irei postar também poemas doutros poetas. Beijos a todos, Carolina de Loar.

 

O ÚNICO

 

Se fosses o único

homem do mundo

eu ficaria triste

em te perder

 

mas como és o que amo

gostaria que fosses

o único

 

Carolina de Loar



Escrito por Carolina de Loar às 11h34
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POEMA PARA GARCIA LORCA

 

Há cravos no jardim

de Lorca

rosas azuis e sementeiras verdes

gramíneas escalam paredes

poemas brotam dos

seus olhos

Há um cheiro bom

no paletó de Lorca

madeira verde de mata fresca

lírios e orquídeas

violáceas brilham

entre seus dentes

Lorca soube ser flores

 

Carolina de Loar



Escrito por Carolina de Loar às 23h28
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Republico um poema que já foi mostrado gentilmente pelo poeta Carlos Gildemar Pontes, em seu blog http://rastros.zip.net

CREPÚSCULO

(a Augustina Bessa Luís)

 

Uma mulher é feita

de intuição e entranhas

 

quando intui

nasce o verbo

entre manhãs

 

uma mulher

adora o por do sol

quando o calor vai

e volta para suas manhas

 

uma mulher é feita

de por do sol

e de crepúsculo

 

Carolina de Loar



Escrito por Carolina de Loar às 20h33
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OLHOS, SOMBRAS E AMORES

 

Meus olhos atrás dos montes

mostram qu’além dos montes

sou talhada de morros e pontes

onde me atalham perto das fontes

homens encantados em gnomos

 

na beira da estrada há flores

na esteira da escada andores

na escala do mapa cores

assento no aposento

e entalho nas sombras da tarde

meu corpo em crase

que arde em amores

 

Carolina de Loar



Escrito por Carolina de Loar às 21h51
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O HOMEM MEU

 

O meu homem

fustiga-me o pescoço

ao alvorecer

 

caça-me os seios

e as saliências

da minha alma

 

guarda-me nos

recantos suas

pétalas de luz

 

acorda-se o

meu homem

com seus pelos

arrepiados e seus

olhos de

ilusão que me fascinam

 

Carolina de Loar



Escrito por Carolina de Loar às 20h55
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MEMÓRIA

 

Em minha memória

há cheiros doces na panela

neve no cimo da colina

há uma primavera

inesquecível

eu, Florbela, Pessoa, Torga

flâneurs pelas praças

de Lisboa

 

corujas cubistas enfeitam paredes surrealistas

corvos espreitam moribundos

pombos sujam bancos de mármore frio

crisântemos rebentam nas coxias

charnecas bailam ao vento

eram dias coloridos

eram dias de preguiça

 

Carolina de Loar



Escrito por Carolina de Loar às 23h27
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